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Apresentação
O POETA TITO OLÍVIO

(Discurso proferido por Elviro Rocha Gomes, no dia 26-11-99, a propósito da apresentação do livro "Guia Prático do Poeta", de Tito Olívio, na Livraria Odisseia, em Faro)

Exmªs. Autoridades
Exmºs. Consócios da AJEA
Minhas Senhoras e Meus Senhores

Há três espécies de cidadãos: os que não prestam para nada (mesmo quando são bem pagos), os que se prestam a tudo (a questão é que lhes paguem bem) e os que prestam serviços à sociedade, de graça. Deus lhes pague. Entre estes últimos encontra-se Tito Olívio, rodeado de muitos amigos e admiradores, o que é natural, e também de detractores grávidos de maldade e ávidos de saciá-la, o que sendo grave, é tão certo como a lei da gravidade a que ele, por ter peso na sociedade, obedece.
Quanto à minha amizade pelo Engº Tito Olívio, essa não tem só décadas de cá sem que decaia, pois vem de lá, do lado de Lisboa, onde a infância lhe foi feliz e boa. Saiba-se entretanto o seguinte:
Se eu fosse só amigo de um cidadão cujo nome cito e até é bonito – Tito –, já era alguma coisa. Mas não chegava, porque quem gostar só do cidadão gosta pouco. É preciso gostar por inteiro. Gostar também do Poeta, como eu. Aliás isto não é inédito, como o prova o "Guia Prático do Poeta" que conduz um séquito de poetas da simpatia do autor, cada um trazendo na mão uma flor, como quem diz, um poema. E o "Guia"? Esse vem com traje domingueiro. Trata-se de um senhor livro, com óptima apresentação e por sinal envergando uma capa mais grossa do que é usual nos seus colegas da AJEA, talvez seja para afugentar a frieza que se fez sócia deste Novembro polar ácido. Mas quem não tem frio, pois favorece-o o calor dos aplausos dos seus leitores, é o nosso Poeta, sentado na capa em mangas de camisa, os braços descansando nos joelhos e a mão esquerda a aconchegar, a agasalhar a irmã que negligentemente se deixa pender. E os olhos? Esses estão muito lúcidos atrás duns óculos translúcidos, cujas hastes as orelhas seguram pelas extremidades como quem empurra um carrinho de mão.
Este livro a mim já não vem a tempo de servir de muito, porque sou como a formiga da cantiga do Zeca Afonso: já não há nada que me faça mudar de rumo. Mas pode ser muito útil, principalmente, a hesitantes sem êxito e a esmorecidos. Seja dito a propósito que a arte de versejar tem sido objecto de estudos vários desde Aristóteles que sabia de tudo até Boileau que sabia só isso. Hoje abundam os tratados de versificação autónomos ou insertos em compêndios. Agora temos este "Guia", mau grado o qual, se me perguntarem "o poeta faz-se?", eu responderei: "Não. O poeta nasce." Quer dizer que, por mais gotas de transpiração que pinguem da testa do esforçado pretendente, ao menos a uma menção honrosa, se não houver a respectiva, a necessária, a genuína, a competente inspiraçãozinha, a inclinação, a vocação, a bossa, a veia, o que lhe queiram chamar, nada feito. No entanto este "Guia" faz muito boa companhia. Aponta caminhos, sugere ideias, emenda possíveis erros, eleva gostos e níveis sendo uma das suas proficuidades o preparar para Jogos Florais. Quem quiser concorrer a estes certames faz bem em o manusear, pois nele poderá ver as regras a que deverá obedecer conforme os géneros forem quadra popular, poesia obrigada a mote, soneto, etc. Tudo isto ensinado por quem tem sido multivencedor nestes prélios cá e no Brasil. Ensina então com exemplos de sua autoria e portanto com autoridade como se contam as sílabas, como se glosa um mote, etc. e o livro até tem esta característica que eu entendo realçar: o ele realçar vários confrades de cujos poemas gosta, independentemente de serem muito conhecidos ou não. Mas ele os torna famosos se o não eram e mais se eram pouco.
E os poemas de T.O.? – perguntar-se-á.
Então passo a dizer porque gosto deles.
1º - porque são sistemáticos e inteligíveis.
2º - porque são explícitos sem serem prolixos.
3º porque definem magistralmente o amor (incluindo o amor que foge, não digo ao fisco, mas ao registo civil, porque não se paga imposto por amar platonicamente).
Todavia não conseguiu fugir ao registo num livro interessantíssimo que fica registado na nossa memória, embora em 2ª mão, porque em primeira foi-o evidentemente na do autor, o qual é quem primeiro sentiu, viu e recordou "in tranquility", como diria Wordsworth, e registou para nós. Este livro chama-se "Sonetos Proibidos" e avança como um moço de forcados, ovante e sem temor, contra o boi Apis do puritanismo. Mas o adjectivo "proibidos" é só uma brincadeira. Não há pornografia nos sonetos e apenas algum erotismo como o de David Mourão Ferreira, mas menos carregado. O primeiro destes sonetos, que podia ser tido por provocante, não vai além de "Tu agarras-te a mim", "sentes prazer na minha excitação", porque a marota, quando vê que o pôs "quase louco"... vai-se embora! Fica assim adiada a prática de dois à vista de muitos e ilesa a pudicícia inata dos menores.
Outra razão por que gosto dos poemas de T.O. é porque consegue dar com breves laivos ou com cores mais sombrias, conforme as situações, a ideia de tristeza, alegria, melancolia, desejo e saudade, em suma, um arguto perscrutador de estados de alma. Outra é porque sente, ama a natureza na sua braveza e calma. Sem querer fazer concorrência à ilustre declamadora desta sessão, passo a oferecer-lhes uma colherinha de mel que, eu, feito abelha, fabriquei a partir do pólen das brenhas floridas de Penha Garcia, que se ergue na ode a ela dedicada:

Aqui de pé, no alto deste monte,
de costas prà lagoa da barragem,
olhos cansados postos no horizonte,
lavando a cara nesta doce aragem,
não quero saudade nem distância!

E que quer ele então? A resposta vem só na estrofe seguinte:

Apenas o silêncio, esta calma
que sinto vir da aldeia até cá cima
e faz deste lugar um paraíso.

Outra das facetas que eu aprecio nos seus poemas é a viveza de espírito que os faz saltar e soltar umas chispas de chiste, quando há a pedir um reparo irónico. Isto tanto mais de salientar, quanto é certo dirigir-se a nós um autor que leva tudo muito a sério. Veja-se como para acabar com chave de ouro, transforma a desconsoladora constatação do último verso dum soneto num sorridente piropo:

"As velhas quando moças eram belas."

Por último gosto porque entra muito bem no mundo infantil, conseguindo em "A gota de água" ser tão bom como os melhores escritores para a infância. Mas há mais. T.O. não é só um poeta de rima e ritmo. Também é poeta nos seus contos em prosa, qual deles o mais poético. Eu confesso que fiquei encantado com o seu Vale Encantado. Depois da Ilha dos Amores julguei que não era possível um encadeamento tão rico de imagens e sugestões como o episódio do Canto IX mas apareceu esta alegoria que nos enche de alegria com uma girândola de gorjeios e plumagens a regalar os ouvidos e a arregalar os olhos. Este conto, já premiado nuns Jogos Florais, tem agora mais um: o meu. Eu o premeio com a classificação máxima – de 20 valores.
Mas fujamos depressa do vale, não vá acontecer ficarmos lá também encantados e a suspirar como as mouras dentro das velhas noras abandonadas no barrocal. Passemos então a outros contos.
Um que não podemos deixar de mencionar é o do moliceiro, cujo enredo, muito simples, decorre, como o título indica, na Ria de Aveiro. E quem havia de ser a donzela que o jovem pescador foi encontrar um dia, com uma voz dulcíssima, cantando tão bem, que ele teve de interromper a sua ocupação e guiar o barco até ela? Uma sereia. Sabe-se que há ninfas no Mondego e no Tejo, Camões as viu e delas deu notícia. Na nossa Ria Formosa, o que mais há é ninfas e sereias, vindas de todas as partes do mundo. Mas na Ria de Aveiro... Ficámos agora a saber que também lá há, quem sabe se foi daqui alguma para lá. O facto é que era bela como uma princesa, segundo o nosso ficcionista ainda na convicção tradicional de que todas as princesas são bonitas e a verdade é que podem sê-lo ou parecê-lo entre as pobres e humildes e subalimentadas e mal vestidas raparigas dos reinos onde são vistas com admiração, respeito, inveja e algum despeito. Esta lenda do moliceiro é escrita muito à guisa dos contos populares que deliciaram a (dele e minha) longínqua infância, mas não é imitação de nenhum de antes, é novinho em folha, batido na forja deste original ferreiro. Assim como o conto "O empurrão" e desde já afirmo que sou o primeiro a negar que tenha alguma coisa a ver com o meu poema "José". Mas quem havia de dizer que quarenta anos depois do assunto desse poema o mesmo havia de continuar actual e continuar a impressionar almas que vibram e canetas que escrevem! Esse assunto é a abusiva e oculta apropriação do trabalho e engenho alheios tanto no conto em prosa "O empurrão" como no poema em oitavas "José", nos quais a única ideia coincidente foi a de, quem ficou sempre na sombra, não aparecer fotografado, conforme é dito no final do conto e revelado na moldura vazia da capa do poema.
Outra situação, esta focada em inúmeras obras literárias depois de Kafka, foi a de atrasos de expediente em secretarias causados pelos burocratas empatas. Tito Olívio usa também este tema – nihil novi sed nove – no seu conto "Adiamento". Mas eu é que não posso adiar mais o final do meu discurso. Só mais isto: Quanto ao seu ensaio sobre justiça social, gostei dele sobretudo por ser um estudo nada maçudo sobre tudo o que parece poder dizer-se respeitante a esse estudo. Em suma: um bom poeta, um bom cidadão e um bom ensaísta. Portanto três, que é a conta que Deus fez.

 
 
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