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A EVOLUÇÃO DA ESCOLA
 
16 maio
 
No tempo da guerra, que foi o da minha meninice, o trabalho infantil não era proibido; por isso, a grande maioria das crianças ficava-se com a terceira ou a quarta classe da instrução primária e entrava no mundo do trabalho por volta dos treze anos. Poucas seriam as freguesias do interior onde havia uma professora habilitada, que podia ministrar a quarta classe; aí, as aulas eram dadas por regentes escolares, geralmente mulheres com a escolaridade mínima, mas reconhecidas e pagas pelo Estado, que apenas ensinavam até à terceira classe. De resto, estes três primeiros anos de escolaridade correspondiam a uma espécie de 1º ciclo, que terminava com uma prova escrita, a que se dava o nome de exame. Por estas razões, a maioria da população masculina, que frequentou a escola nas primeiras décadas da República, não tinha mais habilitações que a terceira classe. Seria injusto minimizar o trabalho e os resultados das regentes escolares. Os rapazes iam trabalhar sabendo escrever e ler bastante bem, sabendo a tabuada e fazer as quatro operações aritméticas. Falta dizer que, no interior, as raparigas não iam à escola, que era só para rapazes. A grande diferença entre as duas épocas, o antigamente e o agora, é que os adolescentes só podem entrar no mundo do trabalho depois dos dezasseis anos, mas hoje vão muito mais mal preparados, ainda que possuam muitíssimo mais conhecimentos em assuntos de que o trabalho não tem necessidade. Tudo começou com uns psicólogos, impantes da peregrina teoria de que a escola não devia obrigar a decorar nada. Aboliram a tabuada, porque as calculadoras fazem tudo; aboliram história, geografia e ciências, pois a internet tem lá tudo. Então, qual foi a mudança? Simplesmente esta: hoje os adolescentes têm mais conhecimentos, mas não os sabem aplicar e não desenvolveram a parte do cérebro que permite o raciocínio e a memória do abstrato. Não estão aptos, por isso, a tomar decisões certas, pensadas, medidas e comparadas. Foram habituados às facilidades e não sabem reagir perante as dificuldades. Não percebem o que leem e não são capazes de se exprimir por escrito. Estamos, portanto, na época favorável a uma minoria inteligente, que estudou, de certo modo, à antiga. Esses é que serão os verdadeiros donos do amanhã.
 
 
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