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ALGUÉM DE BOM SENSO
 
8 junho
 
O governo anunciou para o fim do corrente mês a apresentação pública do projeto de reestruturação do Estado. Funcionário público aposentado, que sou, duvido que, em tão pouco tempo gasto, seja uma real reestruturação. Vamos a ver, mas parece-me que deverá ser apenas um esboço. Pelo que tenho ouvido aos governantes, o projeto visa mais reduzir as despesas públicas do que adaptar o sistema ao século XXI. A minha dúvida resulta do conhecimento, que tenho, de que a vida pública e o interesse privado se misturaram nas últimas décadas, a ponto de não haver linha visível de separação. O interesse privado tem recrutado abundantemente ex-governantes e quadros altamente classificados para utilizar os conhecimentos por eles adquiridos no passado desempenho das funções e também para se servir dos seus relacionamentos pessoais com o poder. Alguém de bom senso pode pensar que isso vai acabar? Os gabinetes do poder estão repletos de assessores virtuais, que são tachos atribuídos por mérito partidário ou familiar. Fossem eles autênticos profissionais qualificados e não seria preciso recorrer e pagar estudos e pareceres a gabinetes particulares, quase todos criados por antigos governantes. Alguém de bom senso pode pensar que isso vai acabar? Se ao Parlamento cabe fazer as leis, porque são elas feitas por gabinetes privados, limitando-se os deputados a aprová-las simplesmente, tantas vezes sem lhes descobrirem os defeitos, por ignorância do tema ou da nossa querida e maltratada língua. Alguém de bom senso pode pensar que isso vai acabar? Se tudo é cozinhado e aprovado pelos políticos, quase todos empenhados em tratar do seu umbigo e com a esperança de vir a ocupar mais altos lugares no poder, alguém de bom senso pode pensar que isso vai acabar, pondo em risco a sua própria esperança e até a segurança do seu tacho? Métodos e procedimentos, no tempo da outra senhora, que os revolucionários (mais tarde ocupantes de tachos e poder) puseram de parte, foram substituídos por outros mais consentâneos com o interesse da classe política. Daquilo que conheço, os dirigentes administrativos ou técnicos, como diretores e diretores-gerais, tinham a carreira profissional feita na «casa», que conheciam como as suas próprias mãos. A Revolução criou uma nova profissão: o político. Os partidos e os seus governos semearam chefes por todo o lado, saídos da sua «casa», sem olhar a mérito profissional. Assim, nenhum deles consegue desempenhar cabalmente as suas funções, durante os primeiros dois anos, pelo menos, por ignorância formal. Assim, têm de se socorrer dos funcionários experientes. Lembra-se o leitor daquela série inglesa «Sim, senhor Ministro»? Também os projetos e os estudos eram feitos pelos administrativos e técnicos de cada serviço, como barragens, estradas, pontes pequenas, portos, etc. Agora, tudo isto tem sido encomendado a gabinetes privados. A quem convém estes recursos a privados? Alguém de bom senso pode pensar que isso vai acabar?
 
 
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