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O APERTO DE MÃO
 
3 setembro
 
O «aperto de mão», esse gesto social tão comummente usado pelos ocidentais, que efeito prático tem nestes tempos já entrados no século XXI? O Homem terá nascido, vivido e morrido na Terra, no mínimo, há oitenta milhões de anos, mas teremos notícias dele somente desde há doze a quinze mil anos. Daí para trás, quão lento terá sido o desenvolvimento do macaco-homem! Pelo Antigo Testamento, vemos que as tribos ou comunidades familiares eram nómadas, mesmo até quando o povo de Israel estava escravizado no Antigo Egito. Todos os homens eram pastores e cultivariam cereais apenas para o pão da sua subsistência. Pão, carne e leite. Não consta que se apertassem as mãos em algum gesto social. É muito vago o meu conhecimento sobre as civilizações orientais, mas dará para pensar que aquele seu gesto social de pôr as mãos, em frente da cara, e de baixar ligeiramente a cabeça era uma cortesia corrente. Nada de contacto com as mãos de outrem. Eles percebem e a gente também. Nem precisam de dizer bom-dia ou boa-tarde. Está tudo implícito no gesto, porque o silêncio pode falar. Como terá aparecido então o hábito do aperto de mão no ocidente? Li algures que seria um gesto de paz e de boa vontade, no sexo masculino, aquele que andava sempre com uma espada ou um simples sacho ou cacete. Cada um tinha necessidade permanente de se defender, num mundo sem rei nem roque, quando uma vida humana valia menos de um pataco. Então, o gesto de mostrar a mão aberta e nua era um sinal de paz e o aperto de mão seria o selo de um acordo comercial ou de uma amizade. Faz sentido. Basta lembrar que, mesmo nas vilas e cidades, se andava pelas ruas às escuras, salvo em noites luarentas. Como se vê no «Primo Basílio» do Eça, homem de profissão ou de negócios que fosse ao Alentejo, por exemplo, não deixava de fazer o seu testamento, porque a probabilidade de voltar a casa era bastante baixa. Até à Segunda Guerra Mundial, um aperto de mão, num contrato ou num negócio, tinha o mesmo valor de uma escritura. No século XIX, comerciante que falisse, sentia-se na obrigação de se matar, para fugir do opróbrio e do escárnio social. Eram os tempos da honra, do brio, da sinceridade, da honradez. A seguir a este funesto prélio de 1939-45, o ocidente entrou em declínio moral, enquanto a tecnologia conhecia um desenvolvimento extraordinário. Hoje, nem uma escritura oferece segurança, quanto mais um aperto de mão! A mentira, que é um véu para ocultar o crime, a corrupção, a incompetência, tem vindo a ocupar o lugar da honradez. Então, para que é o aperto de mão? Para mim, não passa de um gesto anti-higiénico, numa sociedade que tanto se preocupa com a saúde. Nós nem teremos as mãos limpas. E o outro, terá? Alguém se preocupa em lavar as mãos antes de apertar as de outrem? É, portanto, um gesto inútil e mau para a saúde. Um hábito que se impunha desaconselhar, se as preocupações materiais pesassem menos na vida dos cidadãos ocidentais. Ponham as mãos, em frente da boca, como se rezassem, imitando os orientais, porque é muito mais higiénico e até estético!
 
 
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