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A CRUZ DO PAPA FRANCISCO
 
21 janeiro 2014
 
O Papa Francisco veio a este mundo, certamente, predestinado para modernizar a Igreja de Roma, cujo ultra-conservadorismo estava ameaçando de provocar a marcha para a sua extinção próxima. Pode dizer-se que o sucessivo e progressivo abandono dos crentes nos paises mais modernizados se deve a uma prática que estava completamente atrasada vários séculos. Mesmo sabendo que a tarefa papal não vai ser fácil e que os principais vértices da hierarquia eclesiástica vão encontrar gran-des resistências por parte de um clero, que não quererá abdicar facilmente dos seus hábitos e da sua mentalidade, eu acredito que este século XXI ficará na História como o marco da mudança radical do Vaticano. Pouco poderá alterar o Papa nestes escassos anos que terá à sua frente, mas é preciso lembrar que Cristo pregou apenas três anos e a sua obra foi-se desenvolvendo pela ação de continuidade dos apóstolos e tem resistido até hoje. Dado o pontapé de saída, a bola não parará mais. A cruz papal é a prova de uma vontade de mudança, que muito me está a agradar, apesar de eu ter deixado de ser praticante há mais de 50 anos. O Crucifixo, que atravessou quase dois milénios, como símbolo do sacrifício de Cristo pela humanidade, que metia medo à minha infância e que a minha adolescência não compreendia como símbolo de uma religião que falava de amor e perdão, foi tida pelo adulto como desnecessária nesta época de um extraordinário desenvolvimento do conhecimento, da ciência e da técnica, quando o analfabetismo e a ignorância estão a desaparecer no Ocidente do hemisfério norte. O homem, nascido num país do Terceiro Mundo sulamericano, que fez até aos 30 anos a vida de todos nós, sentiu a inexplicável chamada para a vida eclesiástica, resolveu tomar ordens de franciscano e ser pobre para o resto da vida. Chegou a bispo de Buenos Aires e passou a usar uma cruz de prata, pela primeira vez na história da Igreja. Nunca se ouviu falar do seu símbolo de poder e de culto. Agora, porém, que foi eleito Papa por um conclave, que não podia adivinhar a quem estava a escolher, que, desde o primeiro minuto do seu papado se rebelou contra as regras estabelecidas pela estagnação secular e já começou a varrer a casa, ficámos a conhecer essa peça de prata, que me deixou fascinado. Ela, a cruz papal, que sempre foi a sua cruz de bispo, é o grande sinal da mudança. É um símbolo de simplicidade, de amor e de verdade. Em vez de um Cristo morto, para que o chorássemos e nos arrepelássemos durante toda a nossa vida, pela nossa parte na culpa daquele martírio, como aconteceu durante dois milénios, Francisco, o franciscano que deseja ter uma Igreja pobre, virada verdadeiramente para os pobres, apresenta-nos um Cristo VIVO, realmente ressuscitado, pronto para prosseguir uma obra virada para a Paz e para o Amor. Pastor que foi e é, Cristo tem um cordeiro sobre os ombros e os braços cruzados, não sobre a cruz, mas sobre eles mesmos. Para não provocar uma alteração radical na imagem sacramental do crucificado, que metia medo, mantém os antigos braços da cruz na sua forma tradicional, mas cheios agora pelas ovelhas do Seu rebanho, que somos todos nós.
 
 
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