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PRAXES AVILTANTES
 
07 março 2014
 
O trágico desfecho do que se terá passado na praia do Meco, naquela noite de dezembro de 2013, quando os alunos cumpridores estavam dedicados ao estudo para os exames do primeiro semestre, está a dar um forte abanão às modernas praxes académicas. Como já muito foi contado, as praxes vêm já dos séculos passados e existiam unicamente na academia coimbrã, que é a mais antiga do país. A sua criação terá tido um nobre objetivo: a defesa do caloiro contra si próprio e contra as tentações da vida citadina, que podiam levar a perder uma grande parte dos estudantes novatos, oriundos de aldeias e pequenas vilas, que ficavam fascinados com o que Coimbra tinha para oferecer nas noites de farra. Então, o princípio fundamental da praxe era a proibição de o caloiro andar fora de casa depois do pôr do sol. Assim, todo o primeiro ano servia para ele se adaptar aquela nova vida e dedicar-se a estudar como era sua obrigação. O castigo para o caloiro prevaricador era ser rapado, como marca exemplar, numa época em que o cabelo era importante para a vaidade masculina. É claro que os respetivos «padrinhos» utilizavam também determinadas brincadeiras para impor mais facilmente a sua autoridade, mas que não tinham consequências ao nível da higiene pessoal nem do aviltamento da personalidade. Contaram-me, por exemplo, que os caloiros de certa «república» eram escalados para fazer sentinela na rua, à porta do prédio, durante algum tempo. Tinham de usar chapéu em bico, feito de jornal, e uma vassoura ao ombro a fazer de espingarda. De vez em quando, andavam para lá e para cá e tinham de bradar lá para cima «às armas», quando passava uma menina jeitosa, para os da «república» virem vê-la à janela e dizerem-lhe piropos. A praxe académica atravessou as fronteiras de Coimbra e espalhou-se tão rapidamente, quão depressa se encheu o país de universidades e politécnicos. Especialmente as «novas» universidades, os «novos» politécnicos e as universidades privadas viram os estudantes criar as «novas praxes», sem história nem pergaminhos, com atos violentos, sujos e aviltantes. Por vezes obscenos e até pornográficos. Instalou-se uma espécie de libertinagem e de escravidão do caloiro, sobre o qual devia exercer-se mais violência do que nas outras universidades. Tem, portanto, sido um paraíso para os maus e os loucos, a quem o «poder» faz perder o sentimento do humanismo. Infelizmente, só quando há muitas mortes é que os políticos acordam para os problemas. Não é, no entanto, a eles que cabe a solução, embora tenham o dever de pressionar para que não caia em esquecimento. Para mim, os principais culpados foram os reitores; não devem estabelecer normas, mas sacudiram dos ombros a responsabilidade e resolveram proibir as praxes dentro da área do seu feudo. Que fossem fazer asneiras para a rua! A seguir, o segundo responsável é o ministério da Educação, que também não pode estabelecer normas, mas deve fazer uma campanha cerrada e determinada para acabar com os abusos e tornar a fechar as praxes dentro dos muros universitários, onde os exageros podem ser detetados mais facilmente. Ambos, em estreita colaboração, deverão criar castigos severos para quem salte fora do razoável. Já é tempo de perdermos o complexo revolucionário de que «é proibido proibir». No caso do Meco, se houve praxe, ela foi consentida e levada ao extremo do crime, porque se fala em beber até cair, em pernas amarradas e em rastejar com pedras presas às pernas. Estaríamos, então, face a um processo de estranhas caraterísticas iniciáticas, a cenas dirigidas por um louco perverso - talvez sádico - e a um grupo de marionetas cretinas e irresponsáveis, com ambições a chegar também a «Dux».
 
 
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